Território Comum, exposição coletiva com a participação da artista Auri Moraes , Legado Galeria, Goiânia Goiás
Atualizado: 22 de set.
Primeira exposição coletiva de Auri Moraes juntamente com outros artistas do centro-oeste intitulada , Território Comum , na Legado Galeria em Goiânia — Goiás ,Maio de 2026 .
Da inscrição ao encontro com a Legado Galeria
Em maio de 2026, participei da exposição coletiva Território Comum, realizada pela Legado Galeria, em Goiânia. Foi a primeira chamada pública promovida pela galeria e, para mim, tornou-se também um daqueles momentos em que um trabalho que vinha sendo construído no ateliê encontrou um espaço, outros artistas e outros olhares.
Antes da exposição existir diante do público, houve uma inscrição.
Para a chamada de Território Comum, apresentei um recorte da minha pesquisa Re-Construser, enviando cinco trabalhos: Ser Outro, Existir; Carrego Comigo; Pele que Lembra; Casa, Lama e Ruína; e Há Veios.

detalhe de uma das obras inscrita , carrego comigo .
O que eu estava pesquisando naquele momento
Re-Construser partia de uma investigação do corpo não como algo inteiro, pronto ou estável, mas como um corpo feito de fragmentos, camadas, marcas e deslocamentos.
Na inscrição escrevi sobre um corpo em permanente negociação com aquilo que foi rompido, perdido ou deslocado. O fragmento não aparecia como falta de alguma coisa que precisava novamente se tornar inteira. Ao contrário: era justamente a fragmentação que permitia pensar outras maneiras de existir.
Papel, pele têxtil, pintura, colagem e costura eram rasgados, amassados, sobrepostos e novamente ligados. A costura permanecia aparente. Eu não queria esconder a fratura nem fazer parecer que nada havia acontecido. O gesto de costurar fazia parte da própria linguagem. As linhas construíam uma espécie de topografia sensível onde memória, silêncio, desejo e escolha podiam existir ao mesmo tempo.

Já apareciam ali questões que continuam atravessando meu trabalho hoje: corpo, pele, avesso, topografia, abrigo, exposição, fragmentação e reconstrução.
Naquele texto eu dizia que os fragmentos não buscavam representar um todo, mas sustentar a incompletude como condição. E que reconstruir não significava retornar a um estado anterior, mas escolher outra maneira de continuar.
Cinco trabalhos enviados

Ser Outro, Existir, de 2025, mede 104 × 52 cm e reúne pele têxtil, papel, colagem, pintura e costura. A obra foi concebida com frente e verso, permitindo diferentes possibilidades de exposição.
Nela, um corpo feminino permanece quase estático enquanto tudo ao seu redor parece fragmentado. Não é exatamente repouso. É contenção, suspensão e insistência.
A frase “ser outro, existir” atravessa a obra como uma constatação sobre aquilo que tantas vezes fazemos para caber: deslocar partes de nós mesmas para continuar existindo dentro de determinadas expectativas. A pesquisa também colocava esse corpo em confronto com a tradição de representação do feminino na história da arte e com a ideia de um corpo idealizado, observado e silenciado.

Em Carrego Comigo, de 2025, o corpo também não aparece inteiro. Ele se apresenta através de camadas, vestígios e movimentos. A obra mede 80 × 64 cm e combina pele têxtil, papel, colagem, pintura e costura.
As palavras “carrego comigo” entram no trabalho não apenas como escrita, mas como peso.
Na pesquisa, eu pensava naquilo que permanece conosco: memórias, exigências, marcas, desejos e tudo aquilo que foi sendo depositado sobre o corpo ao longo do tempo. Também me interessava a contradição entre uma ideia historicamente imposta de delicadeza feminina e corpos que, ao mesmo tempo, carregam cansaços, silêncios e acúmulos.

Em Pele que Lembra, o corpo deixa quase completamente de ser figura e passa a ser território.
A obra, de 2025, mede 45 × 57 cm. Linhas, costuras, pintura, papel e camadas translúcidas constroem uma superfície que parece registrar alguma coisa sem necessariamente explicá-la.
Os desenhos sugerem simultaneamente olhos e vulvas e formam caminhos ligados ao ver, sentir e lembrar. Sobre essas marcas, o tule cria uma espécie de névoa, uma distância entre o excesso e o olhar. As costuras aparecem como linhas de nível de uma paisagem interna: uma pele que não serve apenas para cobrir, mas para guardar e registrar.

Casa, Lama e Ruína, de 2025, mede 54 × 48 cm e nasceu de uma pergunta sobre aquilo que continuamos habitando mesmo quando já nos fere.
Eu pensava na ideia de construir casas sobre a lama e, com o tempo, aprender a viver dentro das próprias ruínas.
O corpo feminino aparece como lugar que deveria poder ser abrigo, escuta e pertencimento, mas que muitas vezes é atravessado por expectativas e estruturas externas. A obra propunha então um deslocamento: não aceitar a lama como chão definitivo nem a ruína como destino, mas reassumir o próprio corpo como lugar possível de cuidado e reconstrução.

Em Há Veios, de 2025, o corpo é pensado como percurso.
A obra mede 49 × 58 cm e reúne novamente pele têxtil, papel, pintura, colagem, tule e costura.
O que me interessava eram os caminhos que continuam existindo mesmo quando alguma estrutura parece rompida.
Os veios são linhas, mas também escolhas. São ramificações e possibilidades. Fissuras por onde alguma coisa ainda consegue circular.
No texto enviado à Legado, escrevi sobre um corpo que, mesmo instável, encontra caminhos. Pensar o corpo como veios era pensar o ser como movimento: há veios de luta, de vida e de insistência em ser.
Da inscrição para a exposição
Território Comum reuniu 15 artistas: Ana Flávia Maru, Auriele Moraes, Eduardo Moraes, Emilia Simon, Emiliano Freitas, Evelyn Cruvinel, Ferreira Horácio, Fred Oliver, Helena Vasconcelos, Jeff Duprado, Marianne Nassuno, Rondinelli Linhares, Sarah Pancieri, Sylvana Lobo e Vanesa Liberato.
O júri de seleção foi formado por Débora Duarte, Fernando Bueno, José Seronni, Paulo Duarte-Feitoza, Vânia Leal e Simone Evangelista.

Grupo de artista ao lado de alguns jurados e diretor da Galeria
Ser selecionada significava colocar aquela pesquisa que eu havia apresentado inicialmente dentro de um PDF diante de um espaço real. O trabalho deixava de existir apenas na lógica do meu processo e começava a dividir território com outros quinze modos de pensar, fazer e existir.E isso dialogava diretamente com o próprio conceito da exposição.

Um território entendido como encontro
A Legado apresentou Território Comum a partir de uma ideia de território que não se restringia a uma delimitação geográfica.
Território aparecia como lugar de encontro, construção e visibilidade.
Um campo vivo onde pesquisas diferentes poderiam se aproximar sem precisar se tornar iguais.
Talvez tenha sido justamente isso que mais me interessou depois de estar ali: perceber que o comum não é aquilo que nos uniformiza. É também o espaço em que nossas diferenças conseguem permanecer próximas.
Minha pesquisa falava de corpos fragmentados, reconstruções, peles, linhas e territórios internos. De repente, essas questões estavam dentro de outro território, dividindo paredes, espaço e presença com pesquisas completamente diferentes da minha.



A abertura
A abertura aconteceu no dia 7 de maio de 2026, das 19h às 23h, na Legado Galeria, Rua 89, 437, Setor Sul, Goiânia.

A exposição permaneceu aberta à visitação de 8 de maio a 6 de junho de 2026.
Naquela noite, o que havia começado como uma inscrição passou a fazer parte de uma exposição coletiva.
Havia os artistas, as obras, a montagem, a galeria e as pessoas chegando.
E existe uma diferença muito grande entre produzir algo sozinha e finalmente vê-lo no espaço, sendo observado por pessoas que não acompanharam seu processo. Quem olha não conhece necessariamente todos os motivos que fizeram determinada linha existir, por que alguma parte foi rasgada ou por que uma costura precisou permanecer aparente.
A pessoa chega apenas com aquilo que vê.
E a partir dali a obra começa também a existir fora de mim.
O texto crítico de Paulo Duarte-Feitoza
Para construir uma ligação entre aquelas pesquisas, Paulo Duarte-Feitoza, que também participou do júri da chamada, escreveu o texto crítico de Território Comum.
Segundo a própria Legado Galeria, o texto buscou traduzir o conceito da exposição e conduzir a experiência do espectador em diálogo com a expografia.
Esse dado é particularmente importante para mim hoje porque mostra que a exposição não era apenas a reunião de quinze trabalhos selecionados. Existia uma preocupação em construir relações entre eles e fazer com que aquele conjunto produzisse um pensamento.

Paulo duarte feitoza , curador da exposição
Incentivo aos artistas
A primeira edição de Território Comum também contou com uma ação do Instituto Bueno, por iniciativa de Fernando Bueno, que concedeu uma premiação a três dos artistas participantes.
Independentemente de quem recebesse esse reconhecimento, a existência de uma premiação dentro de uma primeira chamada pública também indicava uma tentativa de fortalecer a produção contemporânea e não tratar a participação dos artistas apenas como preenchimento de uma programação expositiva.
O que Território Comum representa no meu percurso
Hoje consigo olhar para aquela inscrição e enxergar algo que talvez eu ainda não conseguisse nomear completamente naquele momento.
Já estavam ali muitos dos elementos que continuariam se transformando dentro da minha pesquisa: o corpo fragmentado, as camadas, o rasgo, a costura que não esconde aquilo que aconteceu, o verso que também pode ser mostrado, as palavras inseridas sobre a pele, as linhas como percursos e a tentativa constante de compreender como um corpo ocupa um território.
Mas também estava ali uma coisa muito importante: a vontade de continuar.
Não necessariamente de reparar tudo.
Não de voltar a ser alguma coisa anterior.
Continuar de outro jeito.
Re-Construser dizia isso antes que eu mesma soubesse até onde essa pesquisa poderia chegar.
E Território Comum colocou esse pensamento ao lado de outros.
Talvez seja também por isso que guardo essa exposição como parte importante da minha trajetória: porque um trabalho feito de fragmentos encontrou um território e, naquele território, encontrou outras pessoas.

galeria de fotos do dia
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escrito por : Auri Moraes , @auri_artista




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