top of page

“Minha pesquisa nasce da tentativa de entender que continuar vivendo, mesmo rasgada, também é uma forma de cura.”

É desse lugar que minhas obras surgem.
Do corpo que guarda marcas. Da roupa que permanece. Das memórias que continuam existindo mesmo quando mudam de forma.

Trabalho com tecido, costura, pintura, colagem e instalação porque vejo essas matérias como peles. Superfícies que absorvem tempo, toque, ausência e presença. Me interessa aquilo que cobre, protege, esconde, sustenta e também aquilo que rasga.

Muito do que faço nasce da relação com a perda dos meus pais na infância. As roupas deles se tornaram abrigo, vestígio e continuidade. Antes mesmo de entender isso como arte, eu já transformava essas peças tentando encontrar um jeito de permanecer perto daquilo que havia partido. Hoje percebo que minha pesquisa começou ali: na tentativa de reconstruir presença através da matéria.

A pintura também surgiu como sobrevivência. Quando criança, desenhar era inventar espaços onde eu conseguia existir com menos medo. Com o tempo, esses desenhos saíram do papel e passaram a ocupar o espaço inteiro. Hoje minhas obras viram peles suspensas, corpos atravessáveis, estruturas moles que parecem estar entre cair e permanecer de pé.

Minha formação em arquitetura atravessa profundamente essa pesquisa. Cresci observando a cidade como corpo vivo: os prédios Art Déco de Goiânia, as praças, os vazios, os caminhos, os lugares de encontro e abrigo. Depois, na arquitetura, comecei a pensar sobre revestimento, proteção e estrutura. Meu interesse nunca esteve no concreto como símbolo de força, mas naquilo que sustenta sem endurecer.

Por isso chamo minha pesquisa de “Arquitetura das Peles Revestidas”.


Porque minhas obras falam de corpos que viram espaço e espaços que também sentem. Falam sobre o que permanece mesmo ferido. Sobre transformar fragilidade em estrutura. Sobre entender que o avesso também sustenta.

Não tento esconder o rasgo.


Quero olhar para ele até que ele deixe de ser apenas ferida e vire linguagem.

Auri

ARQUITETURA DAS PELES REVESTIDAS

poema-manifesto

minha pele não termina em mim.​

ela passa pela roupa,

pela parede,

pela memória da casa,

pela dobra de um tecido antigo.

eu construo com restos.

com o que ficou.

com o que quase foi embora.

costuro porque algumas coisas não querem cicatrizar em silêncio.

me interessam as estruturas cansadas,as matérias que cedem,os corpos que continuam mesmo rachados.

não quero esconder o avesso.

o avesso também sustenta.

minhas obras não pedem distância.

elas querem presença.

querem corpo.

querem respiração perto.

cada tecido carrega um tempo.

cada rasgo abre passagem.

cada camada tenta proteger alguma coisa.

essa pesquisa é minha forma de habitar o mundo.

não pelo concreto.

mas pela pele.

Auri

bottom of page