
Sobre minha pesquisa
Minha pesquisa parte do corpo, mas não de um corpo inteiro ou estável. Interessa-me o corpo que muda, que guarda, que deseja, que inventa maneiras de continuar existindo. Trabalho com memória, feminino, maternidade, herança, ausência, prazer, desejo e futuro, entendendo que nenhuma dessas coisas permanece parada. Tudo se atravessa.Durante muito tempo, minha produção esteve muito ligada à ideia de revestir memórias. Isso continua presente, mas já não dá conta de tudo o que faço. Hoje percebo que meu trabalho também fala daquilo que ainda não aconteceu, dos futuros que inventamos para conseguir viver, dos desejos que movem o corpo e da possibilidade de nos fazermos de outros modos. Antes de sobreviver, eu vivo. Eu desejo, imagino, erro, insisto, crio.Uso a pele como lugar de passagem. Pinto, corto, costuro, sobreponho, rasgo, remendo e deixo o avesso aparecer. A costura não serve apenas para unir. Às vezes segura, às vezes fere, às vezes marca, às vezes cria um novo caminho. O retrocesso, por exemplo, tornou-se para mim um gesto importante: voltar alguns pontos para firmar os próximos. Não como repetição do passado, mas como modo de seguir.Meu trabalho também vem deixando de acontecer somente na superfície. As peles começaram a ocupar o espaço, ganhar volume, cair, tensionar, envolver, esconder e revelar. O corpo de quem vê passou a fazer parte da obra. É preciso circular, abaixar, levantar a cabeça, atravessar, aproximar-se. O olhar não acontece de longe. Ele exige presença.Tenho pensado cada vez mais no toque, na atração, no arrepio, naquilo que chama um corpo em direção ao outro. Por isso, desejo e sensualidade começam a entrar na pesquisa não como ruptura, mas como continuação. A mesma pele que guarda memória também quer contato. A mesma matéria que carrega ausência também pode falar de fome, prazer e vida.Meu processo quase sempre começa por alguma complexidade humana. Depois surgem imagens, personagens, peças encontradas, gestos, palavras, lembranças, invenções. Nem tudo precisa ser verdadeiro para falar de verdade. A ficção também me interessa porque permite criar corpos possíveis, histórias possíveis e futuros que talvez ainda não existam.Hoje entendo minha pesquisa como uma investigação sobre aquilo que nos forma e aquilo que ainda podemos formar em nós. Sobre as marcas que ficam, mas também sobre o que fazemos com elas. Sobre herdar sem repetir. Sobre construir sem apagar os rasgos. Sobre existir sem precisar estar inteira.E talvez seja justamente por isso que minha pesquisa continue mudando: porque eu também continuo.

